olhar o sol

mais médicos, menos juízes

O escritor

Há um dom em mim de falar muito cedo. Há dias que eu acordo antes do sol nascer e vejo o céu ficar laranja aos poucos. Ela volta por mim. A luz.  E todo o dia que o sol aparece eu lembro que alguém não desistiu de mim. É um sentimento estranho. Só me dou conta quando falo em voz alta. As pessoas não entenderiam. Gente da minha idade está mais preocupada com outras coisas. Eu desisti de escutar as pessoas. Eu desisti de dar, porque mal tenho pra mim mesmo. Eu que me dava e nunca me recebia de volta; em algum momento, deixei de me importar com tudo que me importava antes. Desisti de tudo isso e vim olhar o sol nascer.

Têm dias que a insônia me lembra da vida. A vida acontece, e as pessoas também. O que partiu seu coração e fez sua fé se decompor. Sim, eu desisti. Mas, toda vez que eu vejo o sol nascer, sentado à beira da praia, eu me lembro. Eu lembro que alguém não desistiu de mim. E então, eu sonho.

Sabe; toda a vez que eu vejo uma mãe andando na rua com o filho pequeno, levando pela mão ou no colo. E toda vez que eu vejo um filho dando o braço para a mãe, já velha, e andando devagar para que ela possa acompanhar. Toda vez, eu penso no futuro. Eu não penso em mim. Eu penso neles. Um dia, meu filho vai dar o braço para a minha velha esposa caminhar com ele na calçada, e vai diminuir o passo para que ela não fique pra trás. Eu penso nos poucos amigos que tenho hoje e os vejo na minha varanda, sentados em cadeiras e deitados na rede.

Essas são as únicas coisas que eu consigo pensar agora. Esse é o futuro para onde a esperança me leva de mãos dadas quando acordo de noite. Vazo emoções dos pulmões que se transformam do oxigênio e são mais fortes que a vida. Naquelas noites que eu tento dormir, mas minhas memórias não deixam. Eu não sei a próxima coisa sobre o meu próximo passo, eu não me vejo em lugar nenhum. Eu não sei quando esse eu vai ser extinto atrás da vitrine e um novo eu vai estar naquela imagem, andando de mãos dadas e rindo entre amigos. Acalma. Desapavora.

O futuro que eu tenho medo de não sobreviver pra viver. Por isso eu guardo versos e escondo meu coração. Por isso esqueci o corpo e o rosto que me inspiravam poesias. Por isso não olho mais dizendo coisas que minha boca não se atreveria a dizer, nem minhas mãos escrever. Não acredito que foi só uma ilusão. Meu céu não é mais um movimentar de pernas. Hoje, minhas palavras nuas morreriam lá fora.

Essas são as únicas coisas que me salvam de afundar. Esses pensamentos vagos sobre amanhã me mantêm são. Às vezes, pensar em nada é melhor. Balançar a perna pra fora da cama na madrugada e só se sentir letárgico de tanto sono. Quando eu esqueço, naqueles segundos antes de acordar e lembrar quem eu sou de verdade. Não sinto nada. Não sinto as manchas vermelhas na minha pele cobrindo os erros dos outros. Não acuso, furioso, a hipocrisia dos santos. O momento mais precioso de muitos dos meus dias.

Ando daqui para lá, pesado com tudo isso dentro de mim sem saber onde guardar; pra onde gritar. Menos pessoas me olhando como se eu tivesse alguma doença. Mais suspiros de alívio toda vez que o sol voltar e me oferecer uma nova chance que eu não vou aceitar. Eu fico feliz de andar na calçada de cabeça baixa. Cada passo conta. Tem um novo destino em toda esquina. Mais alguém que vai me olhar e não vai ouvir minha voz. Há noites que o chão vai embora e meus pedaços se espalham. Fico longe de tudo, pra não cortar alguém com meus fragmentos. Em dias assim, me escondo do sol. O amanhecer é violento. A noite é cruel. A lua cheia e eu vazio. As pessoas pedem por coisas melhores, problemas menores; mas continuam as mesmas – ou piores.

No futuro haverá mais estrelas cadentes no céu, como eu nunca vira antes. Vai chover mais. Quando o sol nascer, de manhã, a areia inteira vai estar molhada, e as nuvens mais fechadas vão refletir no mar. Porque a luz é mais forte do que a gente pensa. Assim como eu. Eu sou mais forte do que eu penso ser. E isso não veio de mim. No final de tudo, ainda sou um romântico. Ainda estou apaixonado por essa fé que eu nunca escolhi. Alguém ainda não desistiu de mim. Eu não quero ser velho sem uma cúmplice de todas as minhas fantasias. E cada dia que o mundo me diz o quão irrelevantes meus sonhos são, mais eu busco por algo fora de mim que me distraia até o próximo nascer do sol. Antes que a vaidade mate a minha alma.

Quando o sol se põe, às vezes fico mais feliz. Meu dia; sempre começando ou terminando. E, por mais que o nascer do sol me encante; é mesmo o pôr-do-sol que eu queria guardar num copo e abrir toda vez que tentam tomar minhas razões de ser. Lembra-me de um momento em que a verdade não esteja sobre prova, e minha obrigação não seja nada mais que respirar e sentir mais nada. Não existe liberdade se não puder dizer, “eu te amo”. Não existe sentido se a boca de quem se ama não comece onde acaba a sua.

É só um pensamento; uma memória que nunca aconteceu. Não sou cego. Eu vejo o mundo. Eu vejo as dificuldades, a indiferença. E, sinceramente, o que eu vejo me assusta. Chances e dias desparecem a cada instante em que o presente vira passado. Nada que eu possa fazer. Longe da perfeição, enfraquecido pelo tempo; mas forte em intenções. Algo que evoca mais e só o indescritível entende. A vida renasce e faz aniversário duas vezes.

Há algo de divino em ver uma mãe carregando seu filho, e anos depois, o filho carregando sua mãe. Indicação de tempo, deseterno, em algum lugar é igual. Um compromisso com a melhor parte de nós. Uma rima. Amor. Poesias tiradas de feridas. E uma memória que ainda não tive, de onde ainda nem cheguei. Uma luz, um suspiro, um copo iluminado. Um amor que um dia acreditei. Sim, voz silenciosa. Talvez haja algo de divino em nós.

Eu acho que sim.

Josué Campelo | twitter.com/thecampelo [projetorosa.tumblr.com]

“ As pessoas não se apaixonam muito hoje em dia. Elas preferem estudar, ganhar dinheiro e viver outras experiências. Faça uma enquete rápida e concluirá que quase ninguém crê no amor. Quando mais você sabe da vida, menos você se apaixona. A paixão nasce da ignorância: quanto menos sei sobre você, e mais eu quero saber, mais vulnerável eu fico. Só que atualmente ninguém mais quer saber de ninguém, além de si mesmo. Todos uns cínicos. ”

—    Gabito Nunes  (via poesografias)

(via poesografias)

Essa imensidão de nada

Aqui, palavras também salvam. Abraços salvam. Beijos salvam. Uma vez, numa guerra, um pedaço de batom salvou a vida de um grupo de mulheres judias que haviam sido libertadas de um campo de concentração. No caminho para uma base britânica; despidas de sua dignidade, sujas e em condições sub-humanas, receberam comida, remédios e algumas roupas. Mas o que chamou atenção junto com o carregamento para a viagem foi um pedaço de batom usado. Aquelas mulheres doentes, com frio e com fome, deixaram de lado os mantimentos e passaram batom vermelho nos lábios secos. Dormiram quase nuas em camas sem lençol, mas com a boca vermelha de batom (GONIN, 1945). Nada é pior do que perder a dignidade. Nem a fome, nem a doença e o frio nos aplaca mais do que sermos rejeitados ou nos sentimos menos do que nós somos. Sim, Ele não aceita que nos digam que somos menos do que somos. Sim, Deus também está em um batom. 

Só quem ama entende isso. Só quem busca Deus mais nos poetas do que nos teólogos e doutores da religião dessa vida. Só quem morre achando que fazer o bem é natural e não precisa levar nome de “ministério” pra ter valor. Amor não precisa de um carimbo da religião pra ter validade. Deus e amor são redundâncias; religião é o seu oposto. É que amor e vaidade não sabem andar de mãos juntas. O fariseu só vê a lei. O sacerdote passa porque não pode tocar em sangue. O levita ignora porque está à caminho do templo. O samaritano fica. Jesus fica. Não importa se o sábado é sagrado, porque o sábado é feito para o homem, não o contrário. Sim, o Noivo também ama e cura nos sábados. O Noivo se preocupa com a noiva, não importa que dia seja.

Guardarei dentro de mim até desfalecer. Continuar vivendo talvez seja a pior forma de morrer, aqui. Minhas ilusões foram embora e agora estou aqui, respirando com máscaras de ar. Aceito mudo a sentença que não me dão. Tento ignorar o jeito como as pessoas aqui me olham, como se eu tivesse uma doença por não ser igual a elas. Mas, sim, estou doente. Infeccionado com minhas feridas e com o entulho que carreguei por três anos, tentando não mudar.

O que importa é o ressonar e o que a minha alma faz dela. O que eu procuro não cabe em palavras, nem naquilo que posso controlar. Passou o tempo em que não sabia mas quem era eu. Hoje me pergunto pra onde vou, e quem vai me levar. Só sei que chove gente aqui. Chovem de costas, porque é tudo que me dão, e é tudo que eternamente terão de mim. Meus olhos não os reconhecem mais. Relembrem-me o perigo de recomeçar, e o criminoso que eu sou por não controlar tudo que pego.

Lembro das nossas mães anos atrás, que gritavam por nós nas portas de casa quando começava a chover. Penso nisso porque não tenho pra onde ir, a quem recorrer. Tão fácil me deram às costas. Queria não ter que provar nada, ter alguém pra me apoiar. Alguém de verdade. Acolhe sem fazer perguntas, abraça sem questionar. Abandona os compromissos pra não deixar cair, pra não machucar. Uma mãe esquece do filho, mas Ele não esquece de nós. O que importa é o ressonar e o que a minha alma faz dela. O que eu procuro não cabe em palavras, nem naquilo que posso controlar. Passou o tempo em que não sabia mas quem era eu. Hoje me pergunto pra onde vou, e quem vai me levar.

Não vejo aqui mais nada, só chuva e sol. Eu vejo ruínas e uma avenida cheia de estátuas de um passado que só eu lembro, mas já começo a descartar. Queimo as fotos na fogueira, deixo as cinzas pro vento levar. Não quero ficar pra ver acabar. O mundo que amei, morreu. Nunca existiu. Perdi-me nos sons e me levaram embora. Morri aqui também. Não existe nada nesse mundo que crie sensibilidade em quem prefere racionalizar. Porque acredito na subjetividade, e que, realmente, Ele me ama. De graça. Sem pedágio, sem tarifar os meus caminhos que sempre Te tiveram aqui.

A dor caiu em ti, e a tua luz começou a se esvair. Eu disse que a dor não te mataria e você não me ouviu. Te dei um sorriso hoje e falei com muitas vozes. Bati junto com o seu coração e viajamos quilômetros, andando descalços na praia debaixo desse céu nublado. Sem que ninguém soubesse, passeamos de mãos dadas. Não disse nada; é nosso segredo. Mas eu quero falar de amor, imperfeito como sou. Vivendo em estado de emergência emocional, com crises e céus pra segurar. Forte somente em amor, e fraco nele. Meu calcanhar de Aquiles que me destes pra destronar tudo aquilo que me desgoverna. Bandeira que esvoaça, passa a mensagem de esperança. Quando vou escrever algo novo? Até quando vou assistir, de novo, esse mesmo filme que já vi? Quando vou cantar uma nova canção?

Mas fazer o que? É sempre assim. O sábio aponta o céu e o idiota olha o dedo. O cristianismo aponta Cristo, e o idiota vê o cristianismo. Perco o controle sem nada a mais. Levanto as mãos, sem forças pra combater o amor que me cerca. Não, não vêm de nenhum de vocês. Exercitam a pose de piedade, como os fariseus que são, ou os revolucionários que tentam ser. Se depender dos que aqui habitam, morro de frio com meus gritos ao vento. Esses sons de hoje me agradam mais.

O que eu faço então? Há saudade aqui. E se eu fugir pra bem longe e me encontrar? Pode ser que antes eu tropece em algum lugar, e perca a minha memória.

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Você tem o amor

É tão fácil criar em nós uma falsa sensação de intimidade. Sofremos quando atacam nossa sensação de autonomia. É medo de revelar o quão dependente nós somos daquilo que mais desprezamos. Eu vivo num mundo onde tudo que se pensa é em nos aproximarmos mais do mundo. Nesse mesmo passo, nos afastamos das pessoas. Eu estava bem até acordar. Agora que abri meus olhos, quero voltar a dormir. Olhei pra trás e vi o que havia antes, até chorei. Não choro só por mim; eu temo pelo que essa geração vai deixar. Sinto uma tristeza e uma profunda preocupação por aqueles, do meu sangue e do meu coração, que irão se levantar. Jesus entrou chorando em Jerusalém. Aqui, sou mais um que também chora. Pelo que exatamente, não sei. Mas minha consciência não me deixa ignorar que ta tudo errado.

Veremos nossos filhos aprenderem a andar, só pra depois termos que ensiná-los a carregar o mundo no colo. Em breve vão aprender. Em breve verão e sentirão as mesmas coisas. Bem vindo ao mundo onde ser você mesmo não é bom o bastante. Bem vindo ao mundo das aparências, onde não existe meio termo. Polarizam nossas vidas. Não há o costume de ceder. As pessoas só querem vencer. Estão prontas a jogar, mas nunca a perder.

É uma época difícil para os sonhadores porque as pessoas não mais vivem, elas atuam. Se agora é assim, que esperança há no amanhã? O fim do meu mundo ainda pode estar na próxima curva, no contar de três ou no virar de uma dose qualquer. Se for agora, eu nem vou sentir. Se depender de hoje, já me sinto morto. Estou sozinho o suficiente. Que “tua graça me basta” vire uma oração de fé, porquê aqui estou de novo, segurando só esse mundo nas costas. Hoje é um bom dia pra chover cinzas, se fizer silêncio, bem longe. Se ainda estiver aqui, fale mais alto e vire o rosto. Eu estou prestes a implodir. Não deve ser algo bonito de ver.

Nesses últimos dois dias olhei muito pra parede no escuro. Parede branca, onde fica encostada a minha cama. Fiquei deitado de lado, encarando o singular do nada. Falei poucas palavras. Pensei pouco. Escutei pouco. Senti pouco, também. O que passava na minha cabeça e martelava no meu peito se tornou redundante. Não demorou muito pra ser insuportável e refletir na minha apatia. Apatia que brigou com o meu humor.

Há uma crosta de raiva inflamada; enraizada entre minha pele e minha alma. Ela queima, se alastra e destrói aos poucos os fragmentos que ainda vivem. Sinta nos meus átomos, no meu sangue, nas minhas juntas. Sinta em mim, amor. Veja, quem me vê de dimensões que me escapam os olhos. Falei que estava cansado, na verdade estava desmoronando os pedaços por dentro. Ás vezes aquilo que se luta contra é o caminho para a nossa cura. Ás vezes quem mais te ama é quem tu mais afasta. Ou, quem sabe, é tudo coisa da nossa cabeça. Às vezes, na real, eu sempre estive sozinho. Com tanta gente atuando, não se sabe quem é de verdade. Forjar um sorriso é mais fácil do que explicar o porque de fabricá-lo. Na verdade, ninguém perguntaria; todo mundo sabe o porque.

Bukowski disse uma vez: “Descubra o que tu amas e deixa isso te matar”. Detesto esses homens sábios. Eles sempre têm um pingo de razão.

Aparece como epifania. A gente acha que morreu, mas ainda ta la, enterrado dentro de nós. Carregamos nossas bagagens pra todos os lados, não importa o que. Quando lembro delas e tento largar, me frustro outra vez. O papel do passado é nos perseguir mesmo. Nos atormentam, não há escolha. O que faço com ele não depende só de mim. Tem hora que me ensina coisas boas. Chama-me pra sonhar além dos sonhos e me encontrar além do que espero, antes mesmos das coisas que vejo aqui. O passado tem um jeito doloroso e eficaz de nos fazer criar esperança, mas só quando é pretérito perfeito.

Eu não quero viver uma vida sendo tudo aquilo que sempre foi. Eu quero ter cinzas diferentes, dar frutos que não sejam todos iguais. Quero ser um miserável homem que sou de jeitos diferentes. Ser filho de tantas formas, ser pai de muitas outras. Aprender do que antes fugi. Quero que penetre na minha pele a dor de quem anda comigo. Quero responder em um segundo o que antes só pensei; quero ser engolido por minha consciência quando me perguntarem o que antes era de bate-pronto. Há tantas línguas pra dizer a mesma coisa. De todas elas, quero aprender a dizer sem precisar falar. Entregar sem receber nada em troca. Quero parar de viver só pra mim.

Quero me lembrar da última vez em que fui dormir e não passei horas acordado pensando em você. Mas, quando estou prestes a tombar a cabeça, lembranças aleatórias de felicidade não me deixam despencar. Desejos de viver uma vida simples que agrade a Deus, não aos homens. Lucidez pra não me perder no que significam essas palavras. Mas onde houver um pedaço de amor nessa infecção, um sorriso nascerá. Onde houver humanidade, lá quero estar. Vale a pena se aconchegar. Vale a pena desconsiderar o meu pra se tornar um nós.

Não há nada pior do que viver ao redor de quem se precisa impressionar para ser aceito. Mas a gente é assim. O tempo todo estamos dizendo “olhe pra mim, vale a pena me amar”. Fazemos isso com o que vestimos, como parecemos, como falamos, como sorrimos. Ninguém quer ser rejeitado. Tudo que faz vento, venta assim. Não há exceção, há não ser a exceção dessa mesma.

Se todo mundo quer falar, quem vai nos ouvir? Alguém aí quer ouvir? Quando é pra ouvir, sempre botamos na conta de Deus. Na hora da dificuldade de quem está ao nosso lado, sempre dizemos: “Vá orar”. “Vá rezar”. Foi o que Pedro e mais dois disseram para Jesus no Monte das Oliveiras. E Jesus, sozinho, suou sangue. Antes não suasse sozinho. Antes quem jurou que O amava estivesse ali. Mas não. E foi sua maior dor, a solidão. Ninguém quer estar sozinho. Nem Deus. Nem eu. Oremos juntos. Fiquemos juntos. Quem dera isso fosse verdade. Quem dera mais humanidade, menos máscaras de santos.

Ele escolheu o amor, que é tão fraco, pra me lembrar que minhas forças não são nada. Ele escolheu essas coisas loucas pra a minha sabedoria fosse apenas uma criança boba numa caverna, maravilhado com por distinguir sombras da luz de uma fogueira. Vejo o que é, pra me lembrar que não sou. Durmo em paz, dizendo que sentirás falta de mim. Carinho onde se aperta forte na hora de dormir. A luz por trás das nuvens, o sol depois da chuva. O inimigo desse reino onde a felicidade é uma tirania. Perfeita tempestade após o frio.

Sonhos não funcionam quando não se faz acontecer. Eu também cansei de só achar paz no Google. Entrega à Deus, mas nunca pare de caminhar. Acima de tudo, calma. Pra mim, pra vocês. Aprendam a se deixar cair antes de querer voar. Se perto, longe ou depois; quero morrer com memórias, não com sonhos.

Você tem o amor dentro de você. Você tem aquilo que eu preciso. Abre tuas mãos, descruza teus braços e olha ao teu redor. Quando a vida for demais pra mim, eu quero correr pra ti. Eu quero abraçar quem carregue essa mesma loucura dentro de si. Olha pra mim. Eu sei que posso contar com você. Nada mais precisa ser dito. Você tem o amor.

Josué Campelo | twitter.com/thecampelo [projetorosa.tumblr.com]

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Movimentos oníricos

Fiz sopa ontem à noite. Sopa em pó. Só assim, mesmo. Eu faço sopa em pó, café solúvel. Janto miojo com hambúrguer; misturo molho shoyo com queijo ralado pra disfarçar. E sou impaciente. Andei na cozinha vazia, pra lá e pra cá, esperando o tempo certo pra esfriar. Na minha impaciência, queimei a língua duas vezes. Bebi água. Deixei pra lá e fui olhar a janela. Moro numa casa cercada de prédios altos. Quando olho da janela graduada da cozinha, só vejo janelas.

Meia noite e pouca. Chovendo. Centenas de janelas nesses prédios, cada uma vivendo uma vida diferente. Luz apagada ou acesa, com algum clarão ou vazia. Pessoas vendo tevê, lendo um livro; brigando, discutindo; fazendo guerra ou fazendo amor. E eu aqui, olhando de baixo; esperando minha sopa de microondas esfriar. Adivinha em que estava pensando?

Ouvia “Kiss Me” do Sixpence None The Richer, música tranquila de uma banda muito querida. Traz-me lembranças de como se fosse agora. Eu, bem novinho, sentando no saguão do curso de inglês, vendo esse clip passando na tevê. Eu me lembro desse dia. Lembro-me do nome dos meus amigos e dos meus professores. Do rosto deles e do jeito com que alguns roíam as unhas ou seguravam tímidos os livros no colo. E isso me vem à mente assim, como se o céu viesse pra mim enquanto eu estivesse de olhos fechados e eu o reconhecesse por sua fragrância. Inalei e aqui estou. Lembranças ganharam vida dentro de mim, transportaram-se ao contrário e eu sorri. Foi um sorriso triste. Eu que sempre fui românico, aceitei a tristeza como algo bom.

De tanto ficar em pé inquieto, uma hora me sentei. Pareço tão carnal hoje, seja lá o que isso signifique. Um futuro inevitável está pra voltar. Vem virar presente de novo. Eu tinha me esquecido. Uma nova casa está por vir e ainda não sei com que pedras vou levantá-la.  Aprendi que a prioridade é das pedras novas, e não das pedras velhas. Construir casas novas com pedras velhas é quase impossível. Um desastre pode acontecer e talvez não consiga me salvar. Quero construir uma casa pra mim e pra você, chamar de nossa; você que não te vejo. Será a hora de repartir as coisas que nos comovem. Um passo longe da filosofia que torna tudo tão chato. Por mais superficial que eu pareça, não acabo aqui na minha pele. Quem passa sem medo por esses portões, sabe. Mas só quem passa. Quando os lobos vierem me tragar, talvez eu esteja sozinho. Mas, se estiver, quando sorrirem pra mim, vou sorrir pra eles.

Pensei que ficaria feliz, mas não estou. Também não deu tempo de ficar triste. Só to preocupado, assistindo essa inevitável e lenta colisão que ta pra acontecer. O fim do mundo ali na esquina. Não sei se suporto de bom grado, e nem sei até onde vale a pena lutar. São as pequenas coisas e tiques que te entregam, me deixam triste com o que percebo. Tão longe e tão perto, Você está aqui, e me consola na ausência daqueles que amo. Efetivamente perto, porque não é Deus de longe. Se fosse, não seria Deus.

De todos os defeitos que me compõem, o maior deles é ainda estar aqui e não saber pra onde ir. Que caminho seguir? O que de maior tenho dentro d mim nem é meu. Compartilhar amor é compartilhar o que sou. Não existe romance que não te desobrigue de ser bom o bastante. Não existe amor que não corra pra te levantar quando a força se esvair, por mais proibido e errado que seja. O amor não é justo. É grande sim e é pequeno sim. Amor não se mede, mas seu tamanho se sente. Esses sons da noite falam de um lar. Acalentam-me. Portas de vidro em hotéis. Reflexos em olhares baixos – não sei se de medo ou de curiosidade.

O que é meu é seu, pra viver, pra doar, pra doer, pra abraçar, pra fazer realmente teu próprio.

Minha consciência mora no peito, mas não penso com meu coração. Acho que não, não é? Não dá certo. Ainda acredito mais no que sei do que no que sinto. E falo isso porque amor não devia pensar tanto. “Sabemos que”, dizia aquele esperto Apóstolo Paulo, toda vez que ia ensinar alguma coisa pra alguém. Precisamos sentir mais, nos abrir mais, nos alienar mais, nos enfraquecermos mais. Amor é fraco, é bobo, é inocente. Amor é ser que nem criança. Ainda assim, não dá pra pensar com o coração. Talvez devesse, talvez não. Viver é isso. Amar é isso. Amor aceita e abraça, mas até ele tem exceção. Nem sempre o mundo vive em perfeita simetria. Nem sempre aqui se colhe o que se planta. A vida é isso. O amor também. O mundo não é justo, não faz sentido. Nas palavras do sábio, “nada faz sentido, tudo é vaidade”. Fuja de quem quer te mostrar o sentido da vida aqui nessa terra. Fuja desses super-heróis no céu querendo nos ensinar a voar. O sentido da vida é amar alguém e não soltar, com a esperança de que esse não seja o fim. A gente complica tudo. O amor nem sempre é o que a gente quer que seja, mas é tudo a mesma coisa. Se é amor, a direção é a mesma.

Essas palavras podem parecer diferentes das tuas ou do que sentes, mas andam lado a lado com o que dorme perto do peito. É só abrir os olhos e vamos nos encontrar. Ainda que eu não sinta isso, eu sei. E vou alcançar. Vou conquistar. Porque se meu amor é verdadeiro, ele vai aceitar. Aqui mora inocência. Aqui mora o morrer que abre mão da lógica. Aqui existe a força da esperança, mesmo sem se ver. Aqui ainda se acredita que a sabedoria de Deus é loucura pro homem; e que nem todos entenderão essas palavras, porque o homem carnal só entende das coisas da carne. Tem que ser espiritual pra entender o espiritual.

O homem espiritual não buscar ser mais divino, ele só quer ser mais humano.

Esperança tatuada nas paredes onde descansa o coração. Só existe esperança pro que não se vê. Ninguém tem fé em algo que está aqui pra apalpar. Não vejo, não apalpo. Piso com menos segurança do que devia. É que minha fé é do tamanho de uma mostarda, mas é suficiente. Porque não é por minha causa, é por causa Dele. Querido Deus, querida Mãe, querido Pai. Pega-me pela mão, diz quem eu sou e me faz dormir em paz.

Mas quanta coisa passou pela minha cabeça assim, tão rápido. Acordei dos pensamentos que me absorveram. A sensação de que tomei uma injeção e de fato não senti nada. Não doeu, mas me sinto diferente. Aquela caneca de sopa do lado da pia e eu aqui sentado à mesa de mármore. Toca Cássia Eller, dizendo no meu ouvido que “quem sabe a vida é não sonhar”. Quem sabe ela ta certa, quem sabe não. Mas é isso é o que ela sentiu, e ta acima do meu direito de colocar isso à prova; mas é privilégio meu escutar sem julgar. Afasta-me dos que querem transformar o amor em filosofia.

Sentado aqui, estive em lugares lindos e em porões terríveis. Viajei de cabeça pra baixo pensando em você, semicerrando os olhos com medo das luzes vertiginosas que tomaram meu mundo. Tomei pancadas por você, assim como Ele tomou por mim. Nada demais, mas me senti orgulhoso. Saí rindo no final. Pelos lábios que riram por minha causa. Eu lembro de alguns. Eu lembro da sensação, lembro da chuva me ensopando a roupa; colando a blusa no meu peito naquele frio. Nem lembro se tive febre ou fiquei gripado depois. Dessas coisas não se lembra. Eu lembro que toda força que fiz, valeu a pena. Lembro da ausência de nomes, porque nunca perguntei. Livra-me da vaidade, do vício e do prazer próprio. Abate o eu por meu querer, não por obrigação. Não, não sinto nada, mas estou feliz. Sinto as batidas do meu coração nesse pulsar do sangue nos ouvidos. Meu sorriso agora é feliz, mas lembro de ontem, daquelas olheiras e dos ombros arqueados.

Na hora da dificuldade eu perco a espontaneidade. Enlouqueço de olhos fechados e corro pra qualquer direção. Descarto os padrões, os mantras e essas frases montadas. Coisa de quem quer estar no controle. Quando admito que não posso, eu abro os olhos pra orar. Oro de olhos abertos. Olho pra mim, pras minhas mãos e pro que está à minha frente. Tudo parece mais real quando se está com medo. Pra que fechar os olhos? A fé que procuro, que salva e cura, ela mora aqui dentro. Madre Tereza dizia que, quando orava, ela não falava, só escutava. E isso significa muito mais do que parece. Uma profunda distinção e entrega de quem dá mais e pede menos. Será que alguém ainda olha por mim aqui? Quando cair, eu saberei. Saberei do que me busca e sempre me amou, alguém sem nome e com muitos rostos.

Futuro eu aqui, ainda sentado. Quem sabe, quando for velho, eu ainda faça sopa assim. Quem sabe não. Quem sabe terei filhos que, então, cuidarão de mim sem que eu precise dizer nada. Eles saberão e estarão aqui sem que eu faça um som sequer. Extensões de mim, ainda que independentes. Meus, pra sempre, aqui e depois. Acho que todo mundo já pensou nisso em algum momento. Estar velho e debilitado. Do jeito que vou, até durmo mais cedo do que devia. Engraçado, porque penso nisso e não me sinto triste ou limitado, me sinto mais vivo. É bom viver, é bom fazer escolhas e receber delas o que vier. É bom aprender a não guardar ódio; ódio só atrasa a gente, em todos os sentidos. Odiar não vale a pena. Por isso me afasto; afasto-me pra não odiar. É fácil amor se tornar em ódio; carinho não correspondido vira rancor. Por isso não dá pra comprar nada remotamente perto da ideia predestinação, seja cristão calvinista ou budista. Ta tudo aqui, agora. Nem tudo está nas minhas mãos; quase nada, na verdade. Ainda assim, estou feliz. Deixa nas mãos de Deus que Ele sabe. Chamou-me de filho e não de súdito, de amor e não de servo.

Sonho com uma primeira dama; sonho com um bebê real e quem sabe mais dez. Velho, não dispensarei uma sopa de micro-ondas. Eu vou lembrar desse momento. De quando fui jovem e forte, romântico e cheio de ideias. Nas palavras do velho que serei, digo a mim mesmo: “Deus me conserve assim”. Virarei simples riscos coloridos na parede, desenhos de mãos sujos de tinta. Lembrarei daquela criança que vi hoje no colo da mãe enquanto estava na fila do caixa eletrônico: Eu dei língua pra ela, ela mostrou a língua pra mim e ficamos nisso sem que a mãe percebesse por um bocado de tempo. Passará pela minha cabeça, eu sei. Hoje eu estou de pé, amanhã, já não sei. E quem sabe?

Nascer. Engordar. Falar. Andar. Crescer. Aprender. Decorar. Conhecer. Gostar. Amar. Chorar. Sofrer. Resistir. Derrotar. Vencer. Mudar. Cair. Desistir. Levantar. Superar. Apaixonar. Sonhar. Votar. Enriquecer. Consumir. Construir. Adoecer. Repousar. Morrer.

Mas não é o fim. Minha esperança é que viveremos de novo. Minha esperança é que, porque Ele vive, eu posso crer no amanhã. Por isso eu espero com menos medo e menos pressa. Chama-me pelo nome, envolve-me com o carinho Teu. Respiro melhor. Sons que não precisam de tradução. Ficam como estão. Preencho as lacunas comigo mesmo e ali pertenço. Movo-me daqui para lá. Desfaço-me dessa matéria. Há muito mais. Minh’alma dança em véus em meio à esse caos de gente procurando um álibi pros pecados dessa vida. Balanço lírico pra lá e pra cá, flutuo nessa fantasia que guardo aqui. O amor lançou fora todo o medo, não há nada o que alcançar além do que já me alcançou. Minha compreensão de tudo que é maior do que eu. Como um Pai que ama o filho, olha da tua maturidade, como se eu fosse uma criança desenhando com giz de cera no papel a casa que um dia quero morar. Assim tu me vê, assim tu me ama. Assim sou sonhador. Assim sou um realista esperançoso. Assim sou teu e Tu és meu.

Quem sabe eu tenha me encantado por relâmpagos no céu e me sentido pequeno. Quem sabe esse existencialismo todo não passe de uma fase. Quem sabe eu me encolha de novo quando o céu escuro se partir ao meio e clarear minhas sombras. Quem sabe essa seja eu ouvindo vozes na minha cabeça e me comovendo com elas. Quem sabe Deus. Quem não quer saber sou eu. Quem sabe essa sopa já esfriou faz é tempo e eu fui quem parou no tempo.

Josué Campelo | twitter.com/thecampelo [projetorosa.tumblr.com]

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