olhar o sol

mais médicos, menos juízes

Essa imensidão de nada

Aqui, palavras também salvam. Abraços salvam. Beijos salvam. Uma vez, numa guerra, um pedaço de batom salvou a vida de um grupo de mulheres judias que haviam sido libertadas de um campo de concentração. No caminho para uma base britânica; despidas de sua dignidade, sujas e em condições sub-humanas, receberam comida, remédios e algumas roupas. Mas o que chamou atenção junto com o carregamento para a viagem foi um pedaço de batom usado. Aquelas mulheres doentes, com frio e com fome, deixaram de lado os mantimentos e passaram batom vermelho nos lábios secos. Dormiram quase nuas em camas sem lençol, mas com a boca vermelha de batom (GONIN, 1945). Nada é pior do que perder a dignidade. Nem a fome, nem a doença e o frio nos aplaca mais do que sermos rejeitados ou nos sentimos menos do que nós somos. Sim, Ele não aceita que nos digam que somos menos do que somos. Sim, Deus também está em um batom. 

Só quem ama entende isso. Só quem busca Deus mais nos poetas do que nos teólogos e doutores da religião dessa vida. Só quem morre achando que fazer o bem é natural e não precisa levar nome de “ministério” pra ter valor. Amor não precisa de um carimbo da religião pra ter validade. Deus e amor são redundâncias; religião é o seu oposto. É que amor e vaidade não sabem andar de mãos juntas. O fariseu só vê a lei. O sacerdote passa porque não pode tocar em sangue. O levita ignora porque está à caminho do templo. O samaritano fica. Jesus fica. Não importa se o sábado é sagrado, porque o sábado é feito para o homem, não o contrário. Sim, o Noivo também ama e cura nos sábados. O Noivo se preocupa com a noiva, não importa que dia seja.

Guardarei dentro de mim até desfalecer. Continuar vivendo talvez seja a pior forma de morrer, aqui. Minhas ilusões foram embora e agora estou aqui, respirando com máscaras de ar. Aceito mudo a sentença que não me dão. Tento ignorar o jeito como as pessoas aqui me olham, como se eu tivesse uma doença por não ser igual a elas. Mas, sim, estou doente. Infeccionado com minhas feridas e com o entulho que carreguei por três anos, tentando não mudar.

O que importa é o ressonar e o que a minha alma faz dela. O que eu procuro não cabe em palavras, nem naquilo que posso controlar. Passou o tempo em que não sabia mas quem era eu. Hoje me pergunto pra onde vou, e quem vai me levar. Só sei que chove gente aqui. Chovem de costas, porque é tudo que me dão, e é tudo que eternamente terão de mim. Meus olhos não os reconhecem mais. Relembrem-me o perigo de recomeçar, e o criminoso que eu sou por não controlar tudo que pego.

Lembro das nossas mães anos atrás, que gritavam por nós nas portas de casa quando começava a chover. Penso nisso porque não tenho pra onde ir, a quem recorrer. Tão fácil me deram às costas. Queria não ter que provar nada, ter alguém pra me apoiar. Alguém de verdade. Acolhe sem fazer perguntas, abraça sem questionar. Abandona os compromissos pra não deixar cair, pra não machucar. Uma mãe esquece do filho, mas Ele não esquece de nós. O que importa é o ressonar e o que a minha alma faz dela. O que eu procuro não cabe em palavras, nem naquilo que posso controlar. Passou o tempo em que não sabia mas quem era eu. Hoje me pergunto pra onde vou, e quem vai me levar.

Não vejo aqui mais nada, só chuva e sol. Eu vejo ruínas e uma avenida cheia de estátuas de um passado que só eu lembro, mas já começo a descartar. Queimo as fotos na fogueira, deixo as cinzas pro vento levar. Não quero ficar pra ver acabar. O mundo que amei, morreu. Nunca existiu. Perdi-me nos sons e me levaram embora. Morri aqui também. Não existe nada nesse mundo que crie sensibilidade em quem prefere racionalizar. Porque acredito na subjetividade, e que, realmente, Ele me ama. De graça. Sem pedágio, sem tarifar os meus caminhos que sempre Te tiveram aqui.

A dor caiu em ti, e a tua luz começou a se esvair. Eu disse que a dor não te mataria e você não me ouviu. Te dei um sorriso hoje e falei com muitas vozes. Bati junto com o seu coração e viajamos quilômetros, andando descalços na praia debaixo desse céu nublado. Sem que ninguém soubesse, passeamos de mãos dadas. Não disse nada; é nosso segredo. Mas eu quero falar de amor, imperfeito como sou. Vivendo em estado de emergência emocional, com crises e céus pra segurar. Forte somente em amor, e fraco nele. Meu calcanhar de Aquiles que me destes pra destronar tudo aquilo que me desgoverna. Bandeira que esvoaça, passa a mensagem de esperança. Quando vou escrever algo novo? Até quando vou assistir, de novo, esse mesmo filme que já vi? Quando vou cantar uma nova canção?

Mas fazer o que? É sempre assim. O sábio aponta o céu e o idiota olha o dedo. O cristianismo aponta Cristo, e o idiota vê o cristianismo. Perco o controle sem nada a mais. Levanto as mãos, sem forças pra combater o amor que me cerca. Não, não vêm de nenhum de vocês. Exercitam a pose de piedade, como os fariseus que são, ou os revolucionários que tentam ser. Se depender dos que aqui habitam, morro de frio com meus gritos ao vento. Esses sons de hoje me agradam mais.

O que eu faço então? Há saudade aqui. E se eu fugir pra bem longe e me encontrar? Pode ser que antes eu tropece em algum lugar, e perca a minha memória.

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Você tem o amor

É tão fácil criar em nós uma falsa sensação de intimidade. Sofremos quando atacam nossa sensação de autonomia. É medo de revelar o quão dependente nós somos daquilo que mais desprezamos. Eu vivo num mundo onde tudo que se pensa é em nos aproximarmos mais do mundo. Nesse mesmo passo, nos afastamos das pessoas. Eu estava bem até acordar. Agora que abri meus olhos, quero voltar a dormir. Olhei pra trás e vi o que havia antes, até chorei. Não choro só por mim; eu temo pelo que essa geração vai deixar. Sinto uma tristeza e uma profunda preocupação por aqueles, do meu sangue e do meu coração, que irão se levantar. Jesus entrou chorando em Jerusalém. Aqui, sou mais um que também chora. Pelo que exatamente, não sei. Mas minha consciência não me deixa ignorar que ta tudo errado.

Veremos nossos filhos aprenderem a andar, só pra depois termos que ensiná-los a carregar o mundo no colo. Em breve vão aprender. Em breve verão e sentirão as mesmas coisas. Bem vindo ao mundo onde ser você mesmo não é bom o bastante. Bem vindo ao mundo das aparências, onde não existe meio termo. Polarizam nossas vidas. Não há o costume de ceder. As pessoas só querem vencer. Estão prontas a jogar, mas nunca a perder.

É uma época difícil para os sonhadores porque as pessoas não mais vivem, elas atuam. Se agora é assim, que esperança há no amanhã? O fim do meu mundo ainda pode estar na próxima curva, no contar de três ou no virar de uma dose qualquer. Se for agora, eu nem vou sentir. Se depender de hoje, já me sinto morto. Estou sozinho o suficiente. Que “tua graça me basta” vire uma oração de fé, porquê aqui estou de novo, segurando só esse mundo nas costas. Hoje é um bom dia pra chover cinzas, se fizer silêncio, bem longe. Se ainda estiver aqui, fale mais alto e vire o rosto. Eu estou prestes a implodir. Não deve ser algo bonito de ver.

Nesses últimos dois dias olhei muito pra parede no escuro. Parede branca, onde fica encostada a minha cama. Fiquei deitado de lado, encarando o singular do nada. Falei poucas palavras. Pensei pouco. Escutei pouco. Senti pouco, também. O que passava na minha cabeça e martelava no meu peito se tornou redundante. Não demorou muito pra ser insuportável e refletir na minha apatia. Apatia que brigou com o meu humor.

Há uma crosta de raiva inflamada; enraizada entre minha pele e minha alma. Ela queima, se alastra e destrói aos poucos os fragmentos que ainda vivem. Sinta nos meus átomos, no meu sangue, nas minhas juntas. Sinta em mim, amor. Veja, quem me vê de dimensões que me escapam os olhos. Falei que estava cansado, na verdade estava desmoronando os pedaços por dentro. Ás vezes aquilo que se luta contra é o caminho para a nossa cura. Ás vezes quem mais te ama é quem tu mais afasta. Ou, quem sabe, é tudo coisa da nossa cabeça. Às vezes, na real, eu sempre estive sozinho. Com tanta gente atuando, não se sabe quem é de verdade. Forjar um sorriso é mais fácil do que explicar o porque de fabricá-lo. Na verdade, ninguém perguntaria; todo mundo sabe o porque.

Bukowski disse uma vez: “Descubra o que tu amas e deixa isso te matar”. Detesto esses homens sábios. Eles sempre têm um pingo de razão.

Aparece como epifania. A gente acha que morreu, mas ainda ta la, enterrado dentro de nós. Carregamos nossas bagagens pra todos os lados, não importa o que. Quando lembro delas e tento largar, me frustro outra vez. O papel do passado é nos perseguir mesmo. Nos atormentam, não há escolha. O que faço com ele não depende só de mim. Tem hora que me ensina coisas boas. Chama-me pra sonhar além dos sonhos e me encontrar além do que espero, antes mesmos das coisas que vejo aqui. O passado tem um jeito doloroso e eficaz de nos fazer criar esperança, mas só quando é pretérito perfeito.

Eu não quero viver uma vida sendo tudo aquilo que sempre foi. Eu quero ter cinzas diferentes, dar frutos que não sejam todos iguais. Quero ser um miserável homem que sou de jeitos diferentes. Ser filho de tantas formas, ser pai de muitas outras. Aprender do que antes fugi. Quero que penetre na minha pele a dor de quem anda comigo. Quero responder em um segundo o que antes só pensei; quero ser engolido por minha consciência quando me perguntarem o que antes era de bate-pronto. Há tantas línguas pra dizer a mesma coisa. De todas elas, quero aprender a dizer sem precisar falar. Entregar sem receber nada em troca. Quero parar de viver só pra mim.

Quero me lembrar da última vez em que fui dormir e não passei horas acordado pensando em você. Mas, quando estou prestes a tombar a cabeça, lembranças aleatórias de felicidade não me deixam despencar. Desejos de viver uma vida simples que agrade a Deus, não aos homens. Lucidez pra não me perder no que significam essas palavras. Mas onde houver um pedaço de amor nessa infecção, um sorriso nascerá. Onde houver humanidade, lá quero estar. Vale a pena se aconchegar. Vale a pena desconsiderar o meu pra se tornar um nós.

Não há nada pior do que viver ao redor de quem se precisa impressionar para ser aceito. Mas a gente é assim. O tempo todo estamos dizendo “olhe pra mim, vale a pena me amar”. Fazemos isso com o que vestimos, como parecemos, como falamos, como sorrimos. Ninguém quer ser rejeitado. Tudo que faz vento, venta assim. Não há exceção, há não ser a exceção dessa mesma.

Se todo mundo quer falar, quem vai nos ouvir? Alguém aí quer ouvir? Quando é pra ouvir, sempre botamos na conta de Deus. Na hora da dificuldade de quem está ao nosso lado, sempre dizemos: “Vá orar”. “Vá rezar”. Foi o que Pedro e mais dois disseram para Jesus no Monte das Oliveiras. E Jesus, sozinho, suou sangue. Antes não suasse sozinho. Antes quem jurou que O amava estivesse ali. Mas não. E foi sua maior dor, a solidão. Ninguém quer estar sozinho. Nem Deus. Nem eu. Oremos juntos. Fiquemos juntos. Quem dera isso fosse verdade. Quem dera mais humanidade, menos máscaras de santos.

Ele escolheu o amor, que é tão fraco, pra me lembrar que minhas forças não são nada. Ele escolheu essas coisas loucas pra a minha sabedoria fosse apenas uma criança boba numa caverna, maravilhado com por distinguir sombras da luz de uma fogueira. Vejo o que é, pra me lembrar que não sou. Durmo em paz, dizendo que sentirás falta de mim. Carinho onde se aperta forte na hora de dormir. A luz por trás das nuvens, o sol depois da chuva. O inimigo desse reino onde a felicidade é uma tirania. Perfeita tempestade após o frio.

Sonhos não funcionam quando não se faz acontecer. Eu também cansei de só achar paz no Google. Entrega à Deus, mas nunca pare de caminhar. Acima de tudo, calma. Pra mim, pra vocês. Aprendam a se deixar cair antes de querer voar. Se perto, longe ou depois; quero morrer com memórias, não com sonhos.

Você tem o amor dentro de você. Você tem aquilo que eu preciso. Abre tuas mãos, descruza teus braços e olha ao teu redor. Quando a vida for demais pra mim, eu quero correr pra ti. Eu quero abraçar quem carregue essa mesma loucura dentro de si. Olha pra mim. Eu sei que posso contar com você. Nada mais precisa ser dito. Você tem o amor.

Josué Campelo | twitter.com/thecampelo [projetorosa.tumblr.com]

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Movimentos oníricos

Fiz sopa ontem à noite. Sopa em pó. Só assim, mesmo. Eu faço sopa em pó, café solúvel. Janto miojo com hambúrguer; misturo molho shoyo com queijo ralado pra disfarçar. E sou impaciente. Andei na cozinha vazia, pra lá e pra cá, esperando o tempo certo pra esfriar. Na minha impaciência, queimei a língua duas vezes. Bebi água. Deixei pra lá e fui olhar a janela. Moro numa casa cercada de prédios altos. Quando olho da janela graduada da cozinha, só vejo janelas.

Meia noite e pouca. Chovendo. Centenas de janelas nesses prédios, cada uma vivendo uma vida diferente. Luz apagada ou acesa, com algum clarão ou vazia. Pessoas vendo tevê, lendo um livro; brigando, discutindo; fazendo guerra ou fazendo amor. E eu aqui, olhando de baixo; esperando minha sopa de microondas esfriar. Adivinha em que estava pensando?

Ouvia “Kiss Me” do Sixpence None The Richer, música tranquila de uma banda muito querida. Traz-me lembranças de como se fosse agora. Eu, bem novinho, sentando no saguão do curso de inglês, vendo esse clip passando na tevê. Eu me lembro desse dia. Lembro-me do nome dos meus amigos e dos meus professores. Do rosto deles e do jeito com que alguns roíam as unhas ou seguravam tímidos os livros no colo. E isso me vem à mente assim, como se o céu viesse pra mim enquanto eu estivesse de olhos fechados e eu o reconhecesse por sua fragrância. Inalei e aqui estou. Lembranças ganharam vida dentro de mim, transportaram-se ao contrário e eu sorri. Foi um sorriso triste. Eu que sempre fui românico, aceitei a tristeza como algo bom.

De tanto ficar em pé inquieto, uma hora me sentei. Pareço tão carnal hoje, seja lá o que isso signifique. Um futuro inevitável está pra voltar. Vem virar presente de novo. Eu tinha me esquecido. Uma nova casa está por vir e ainda não sei com que pedras vou levantá-la.  Aprendi que a prioridade é das pedras novas, e não das pedras velhas. Construir casas novas com pedras velhas é quase impossível. Um desastre pode acontecer e talvez não consiga me salvar. Quero construir uma casa pra mim e pra você, chamar de nossa; você que não te vejo. Será a hora de repartir as coisas que nos comovem. Um passo longe da filosofia que torna tudo tão chato. Por mais superficial que eu pareça, não acabo aqui na minha pele. Quem passa sem medo por esses portões, sabe. Mas só quem passa. Quando os lobos vierem me tragar, talvez eu esteja sozinho. Mas, se estiver, quando sorrirem pra mim, vou sorrir pra eles.

Pensei que ficaria feliz, mas não estou. Também não deu tempo de ficar triste. Só to preocupado, assistindo essa inevitável e lenta colisão que ta pra acontecer. O fim do mundo ali na esquina. Não sei se suporto de bom grado, e nem sei até onde vale a pena lutar. São as pequenas coisas e tiques que te entregam, me deixam triste com o que percebo. Tão longe e tão perto, Você está aqui, e me consola na ausência daqueles que amo. Efetivamente perto, porque não é Deus de longe. Se fosse, não seria Deus.

De todos os defeitos que me compõem, o maior deles é ainda estar aqui e não saber pra onde ir. Que caminho seguir? O que de maior tenho dentro d mim nem é meu. Compartilhar amor é compartilhar o que sou. Não existe romance que não te desobrigue de ser bom o bastante. Não existe amor que não corra pra te levantar quando a força se esvair, por mais proibido e errado que seja. O amor não é justo. É grande sim e é pequeno sim. Amor não se mede, mas seu tamanho se sente. Esses sons da noite falam de um lar. Acalentam-me. Portas de vidro em hotéis. Reflexos em olhares baixos – não sei se de medo ou de curiosidade.

O que é meu é seu, pra viver, pra doar, pra doer, pra abraçar, pra fazer realmente teu próprio.

Minha consciência mora no peito, mas não penso com meu coração. Acho que não, não é? Não dá certo. Ainda acredito mais no que sei do que no que sinto. E falo isso porque amor não devia pensar tanto. “Sabemos que”, dizia aquele esperto Apóstolo Paulo, toda vez que ia ensinar alguma coisa pra alguém. Precisamos sentir mais, nos abrir mais, nos alienar mais, nos enfraquecermos mais. Amor é fraco, é bobo, é inocente. Amor é ser que nem criança. Ainda assim, não dá pra pensar com o coração. Talvez devesse, talvez não. Viver é isso. Amar é isso. Amor aceita e abraça, mas até ele tem exceção. Nem sempre o mundo vive em perfeita simetria. Nem sempre aqui se colhe o que se planta. A vida é isso. O amor também. O mundo não é justo, não faz sentido. Nas palavras do sábio, “nada faz sentido, tudo é vaidade”. Fuja de quem quer te mostrar o sentido da vida aqui nessa terra. Fuja desses super-heróis no céu querendo nos ensinar a voar. O sentido da vida é amar alguém e não soltar, com a esperança de que esse não seja o fim. A gente complica tudo. O amor nem sempre é o que a gente quer que seja, mas é tudo a mesma coisa. Se é amor, a direção é a mesma.

Essas palavras podem parecer diferentes das tuas ou do que sentes, mas andam lado a lado com o que dorme perto do peito. É só abrir os olhos e vamos nos encontrar. Ainda que eu não sinta isso, eu sei. E vou alcançar. Vou conquistar. Porque se meu amor é verdadeiro, ele vai aceitar. Aqui mora inocência. Aqui mora o morrer que abre mão da lógica. Aqui existe a força da esperança, mesmo sem se ver. Aqui ainda se acredita que a sabedoria de Deus é loucura pro homem; e que nem todos entenderão essas palavras, porque o homem carnal só entende das coisas da carne. Tem que ser espiritual pra entender o espiritual.

O homem espiritual não buscar ser mais divino, ele só quer ser mais humano.

Esperança tatuada nas paredes onde descansa o coração. Só existe esperança pro que não se vê. Ninguém tem fé em algo que está aqui pra apalpar. Não vejo, não apalpo. Piso com menos segurança do que devia. É que minha fé é do tamanho de uma mostarda, mas é suficiente. Porque não é por minha causa, é por causa Dele. Querido Deus, querida Mãe, querido Pai. Pega-me pela mão, diz quem eu sou e me faz dormir em paz.

Mas quanta coisa passou pela minha cabeça assim, tão rápido. Acordei dos pensamentos que me absorveram. A sensação de que tomei uma injeção e de fato não senti nada. Não doeu, mas me sinto diferente. Aquela caneca de sopa do lado da pia e eu aqui sentado à mesa de mármore. Toca Cássia Eller, dizendo no meu ouvido que “quem sabe a vida é não sonhar”. Quem sabe ela ta certa, quem sabe não. Mas é isso é o que ela sentiu, e ta acima do meu direito de colocar isso à prova; mas é privilégio meu escutar sem julgar. Afasta-me dos que querem transformar o amor em filosofia.

Sentado aqui, estive em lugares lindos e em porões terríveis. Viajei de cabeça pra baixo pensando em você, semicerrando os olhos com medo das luzes vertiginosas que tomaram meu mundo. Tomei pancadas por você, assim como Ele tomou por mim. Nada demais, mas me senti orgulhoso. Saí rindo no final. Pelos lábios que riram por minha causa. Eu lembro de alguns. Eu lembro da sensação, lembro da chuva me ensopando a roupa; colando a blusa no meu peito naquele frio. Nem lembro se tive febre ou fiquei gripado depois. Dessas coisas não se lembra. Eu lembro que toda força que fiz, valeu a pena. Lembro da ausência de nomes, porque nunca perguntei. Livra-me da vaidade, do vício e do prazer próprio. Abate o eu por meu querer, não por obrigação. Não, não sinto nada, mas estou feliz. Sinto as batidas do meu coração nesse pulsar do sangue nos ouvidos. Meu sorriso agora é feliz, mas lembro de ontem, daquelas olheiras e dos ombros arqueados.

Na hora da dificuldade eu perco a espontaneidade. Enlouqueço de olhos fechados e corro pra qualquer direção. Descarto os padrões, os mantras e essas frases montadas. Coisa de quem quer estar no controle. Quando admito que não posso, eu abro os olhos pra orar. Oro de olhos abertos. Olho pra mim, pras minhas mãos e pro que está à minha frente. Tudo parece mais real quando se está com medo. Pra que fechar os olhos? A fé que procuro, que salva e cura, ela mora aqui dentro. Madre Tereza dizia que, quando orava, ela não falava, só escutava. E isso significa muito mais do que parece. Uma profunda distinção e entrega de quem dá mais e pede menos. Será que alguém ainda olha por mim aqui? Quando cair, eu saberei. Saberei do que me busca e sempre me amou, alguém sem nome e com muitos rostos.

Futuro eu aqui, ainda sentado. Quem sabe, quando for velho, eu ainda faça sopa assim. Quem sabe não. Quem sabe terei filhos que, então, cuidarão de mim sem que eu precise dizer nada. Eles saberão e estarão aqui sem que eu faça um som sequer. Extensões de mim, ainda que independentes. Meus, pra sempre, aqui e depois. Acho que todo mundo já pensou nisso em algum momento. Estar velho e debilitado. Do jeito que vou, até durmo mais cedo do que devia. Engraçado, porque penso nisso e não me sinto triste ou limitado, me sinto mais vivo. É bom viver, é bom fazer escolhas e receber delas o que vier. É bom aprender a não guardar ódio; ódio só atrasa a gente, em todos os sentidos. Odiar não vale a pena. Por isso me afasto; afasto-me pra não odiar. É fácil amor se tornar em ódio; carinho não correspondido vira rancor. Por isso não dá pra comprar nada remotamente perto da ideia predestinação, seja cristão calvinista ou budista. Ta tudo aqui, agora. Nem tudo está nas minhas mãos; quase nada, na verdade. Ainda assim, estou feliz. Deixa nas mãos de Deus que Ele sabe. Chamou-me de filho e não de súdito, de amor e não de servo.

Sonho com uma primeira dama; sonho com um bebê real e quem sabe mais dez. Velho, não dispensarei uma sopa de micro-ondas. Eu vou lembrar desse momento. De quando fui jovem e forte, romântico e cheio de ideias. Nas palavras do velho que serei, digo a mim mesmo: “Deus me conserve assim”. Virarei simples riscos coloridos na parede, desenhos de mãos sujos de tinta. Lembrarei daquela criança que vi hoje no colo da mãe enquanto estava na fila do caixa eletrônico: Eu dei língua pra ela, ela mostrou a língua pra mim e ficamos nisso sem que a mãe percebesse por um bocado de tempo. Passará pela minha cabeça, eu sei. Hoje eu estou de pé, amanhã, já não sei. E quem sabe?

Nascer. Engordar. Falar. Andar. Crescer. Aprender. Decorar. Conhecer. Gostar. Amar. Chorar. Sofrer. Resistir. Derrotar. Vencer. Mudar. Cair. Desistir. Levantar. Superar. Apaixonar. Sonhar. Votar. Enriquecer. Consumir. Construir. Adoecer. Repousar. Morrer.

Mas não é o fim. Minha esperança é que viveremos de novo. Minha esperança é que, porque Ele vive, eu posso crer no amanhã. Por isso eu espero com menos medo e menos pressa. Chama-me pelo nome, envolve-me com o carinho Teu. Respiro melhor. Sons que não precisam de tradução. Ficam como estão. Preencho as lacunas comigo mesmo e ali pertenço. Movo-me daqui para lá. Desfaço-me dessa matéria. Há muito mais. Minh’alma dança em véus em meio à esse caos de gente procurando um álibi pros pecados dessa vida. Balanço lírico pra lá e pra cá, flutuo nessa fantasia que guardo aqui. O amor lançou fora todo o medo, não há nada o que alcançar além do que já me alcançou. Minha compreensão de tudo que é maior do que eu. Como um Pai que ama o filho, olha da tua maturidade, como se eu fosse uma criança desenhando com giz de cera no papel a casa que um dia quero morar. Assim tu me vê, assim tu me ama. Assim sou sonhador. Assim sou um realista esperançoso. Assim sou teu e Tu és meu.

Quem sabe eu tenha me encantado por relâmpagos no céu e me sentido pequeno. Quem sabe esse existencialismo todo não passe de uma fase. Quem sabe eu me encolha de novo quando o céu escuro se partir ao meio e clarear minhas sombras. Quem sabe essa seja eu ouvindo vozes na minha cabeça e me comovendo com elas. Quem sabe Deus. Quem não quer saber sou eu. Quem sabe essa sopa já esfriou faz é tempo e eu fui quem parou no tempo.

Josué Campelo | twitter.com/thecampelo [projetorosa.tumblr.com]

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O ar do céu passa pelos teus pulmões

Acabou tudo. As luzes se apagaram. Eu olhei daqui de fora, longe de você. Mas tu nunca se esvaiu de mim. Cresceu aqui dentro. Andou em mim, desenhou caminhos com as pegadas dos teus pés. Cada de um dos que estiveram ao meu redor. Em tudo esteve aqui comigo. Nunca foi embora. Eu nunca fui. O que mudou foi o que importa menos.

Ouço canções românticas nessas cenas violentas. Torna tudo mais tolerável. Tragédias em cores chapadas, sem som daqui desse lado. Visões do lado de fora do vidro. Imagens borradas da janela. É o que tenho assistido, e os minutos não mentem. Cada minuto pra mim vale, e por isso ando inquieto. Subi num ônibus na volta pra casa, tombei a cabeça de lado no vidro da janela. Ignorei tudo. De madrugada levantei, sem consegui dormir. Lá fora, chuva. Culpa corroeu minhas veias, enferrujou meus olhos e eu chorei. Havia amor, mas ele se despedaçou pelo chão por causa da minha negligência. Não posso ser perfeito. Minha doença é me importar. E cansa. Transformamos amor em filosofia. Temos medo dele. É imenso demais e tira a gente do controle. Perder o controle apavora. Ninguém precisa que seus sentimentos sejam postos à prova. O que se sente não tem que entender. A escolha de sentir e viver ao invés de parar pra pensar. Gente que não tem medo de dizer quando gosta de você.

Isso é amor. Não tenho dúvidas, é o que eu sinto. É o que não cabe mais dentro de mim, quer dizer “oi amor, amo você” quando não tem o que dizer. Amor que tudo espera, tudo entende, tudo sofre. Amor paciente, que acredita em tudo mesmo sabendo que não é verdade. Porque ama.

Porque te amo.

O amor persegue estrelas que nunca irá alcançar, mas se guia por elas pra chegar ao seu destino. Meu destino? É você. Minha estrela? É a tua pele a minha estrada, teu riso a minha felicidade. O desejo de construir planos no prazer da tua presença, sentir alegria quando acaba a tua ausência. De olhos fechados traçar a tua face com meus dedos; aprendendo teus contornos com a ponta do indicador. Apaixonar pela tua alma e o teu ventre, teus pés e teus cabelos. Tua força é diferente da minha, mas a paixão é igual. Minha energia gosta da tua, meus ventos se encantaram pelos teus. Meu joelho dói hoje. Não sei por quê. Ta assim desde ontem. Acho que andei demais. Não me importei. Estava bem entre amigos, mas sem você.

Um dia sem falar contigo ainda é um pouco triste, mas ainda é melhor do que te ter só pela metade.

Eu sei que cresce uma raiva em mim. Um pote de ódio que não quero que me domine, mas já controla alguns dos meus atos. Certamente, algumas decisões. Não quero, não vou, não faço. Meu imperativo tomou conta. Eu posso, eu faço. Em primeiro eu, segundo eu, depois eu. Pai, me quebra, não posso ser assim. Dá-me forças e não me deixa ser consumido, esse não sou eu. O que eu sinto tudo espera, tudo acredita; é realmente paciente. Não guarda rancor. Ainda assim, sabe quando recuar. Não fica aqui pra sempre antes de se condensar em algo diferente. A vida segue, o amor muda. Amor é decisão. É difícil matar uma paixão sem o poder do tempo, mas ela morre sim. Morre feio, mas morre. Quando isso acontece, amar fica difícil. É difícil amar gente, ainda mais quando a conhecemos bem. Ainda mais quando ela nos magoou. Ajuda-me a amar quem eu conheço os defeitos e pecados. Mostre-me alguém que só ama quem é de fora, mas se esconde de quem é de dentro, e te mostro uma pessoa iludida acerca de si mesma. Eu não quero ser essa pessoa. De perto ninguém é perfeito, de perto ninguém é normal. Mas quem quer ser normal? Mostre-me uma pessoa normal e te mostro uma pessoa chata. Mostre-me alguém que nunca errou e te aponto uma cruz.

Fuja-me das comparações; dos remendos incompletos, das vidas fragmentadas. Livra-me dos amores sem compromisso e das paixões sem freio nas horas erradas. Inspira calma. Que desça o meu ego. Desapareça eu pra que Tu apareça.

Não tem espaço pra nós dois se não formos um.

Vem ser um comigo. Eu te amaria por toda a vida. Perderia minha memória e a encontraria em ti. Vem andar comigo; de mãos dadas, pra uma direção só; com um guia só. Esse sentimento original nunca vai embora. Quem sabe encubo também, desaprendo das maneiras que quero e te desamo por outro alguém. Abro a porta pros que tem aquele amor tão forte que faz com que todo o resto seja bom o bastante, só por existir. Esperança que floreiam tua existência. Flores ao teu redor afloram com acautela, só por causa da beleza que transcende teu rosto. Teu jeito que encanta a natureza. Minha subjetividade é onde mora a verdade. É o meu jeito de me render e aceita não compreender. É arrogância demais achar que tudo tem um propósito. Nem tudo tem motivo. Entrego as armas, solto o controle. Queria te deixar entrar. Só te pediria pra não quebrar nada.

Um suspiro dos teus lábios e tudo aqui vibra e agradece. Não, eu não consigo sozinho. Mas não estou sozinho. Estou? Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, ainda que eu não tenha você no lugar onde devia estar, estarei seguro; protegido nas asas da mãe. As memórias são o que tenho de mais precioso. Tu mora em tantas delas. Quisera eu parar de escrever sobre amor, mas daí escreveria sobre o que? A boca fala do que o coração está cheio. Se o amor acabasse e eu me perdesse hoje, renasceria dentro do teu.

Hoje eu saí, olhei para o céu, pras pessoas, pro mar. As luzes se ascenderam depois. Olhei pros meus amigos e me senti gratos por eles. Grato por não estar sozinho. Grato por ter visto o chão tremer e a minha alegria roubada, porque o Teu amor não saiu pela janela. Se me lanço ao mar com os olhos nos Teus, não afundarei. E, ainda que me desvie e afunde, volto pros Teus braços. Tu não me deixas afogar. Volto aqui, no mesmo horizonte, na mesma praia. A mesma paixão no peito. Esse céu que tu olha, não importa onde eu estive; eu olhava pra cima e me consolava com ele. Teu céu sempre foi o mesmo que o meu.

Olhar pra ti, pensar em ti; me fez criar verbos que só se aplicam à você. Mas parecem tão perfeitos, como só eu posso entender e você não aceitaria. Por isso guardo pra mim. Te abraço em meu coração.

Que minhas palavras mal interpretadas ao menos se transformem num incentivo de vida; um incentivo ao abandono de querer ser boa o bastante pra alguma coisa. Um empurrão para o abismo dessa vontade de querer controlar tudo e saber tudo e enxergar tudo. Talvez isso não exista. Eu jamais posso ousar assumir saber nada. Não sei. Só sinto. E eu queria que sentisse o que eu grito aqui. É o meu desejo que tu respire o fundo e vá. A voz da gente treme mesmo; é normal oscilar e gaguejar quando queremos falar a verdade. Eu sei que teu coração é sincero e da tua boca só sai à verdade. Por isso te comedes tanto em falar e às vezes tem medo de escutar. Eu não tenho medo. Queria que tu largasse o teu. A realidade não se importa com o que tu acredita, mas eu sim. Não há nada mais bonito. Então volta pra casa. Volta, que aqui a gente te ama; aqui tu é querida. Volta, que o é que de casa ta pra voltar. E eu estou aqui. Vou lutar pelo que vale a pena lutar, abraçar o que é meu antes que seja tarde. Leva meu sofrimento gravado no teu peito, pois vou correr por ti de novo. Por ti troco meu cinza pelo teu preto e branco. Meu amor é impuro, mas sabe ceder.

Lembre-me, Pai, que eu não sou o personagem principal do mundo, mas não me deixa esquecer o quanto sou especial. É que o meu preço já foi pago, mas todo dia tentam me comprar. Todo dia eles vêm desvalorizar tudo o que Tu vê em mim, tudo o que Tu pagou. Independentemente daquilo que há em mim, Tu me olha e só vê o teu sangue. E o teu sangue é puro; o teu amor não tem falha, nada me separa dele.

E “nada” é muita coisa.

Isso me ajuda a prosseguir. Então Te peço: Ajuda-me a andar. Anda comigo. Anda comigo somente pelo fim de andar comigo e estar aqui. Quero amar primeiro antes de viver. Tu entende isso? Tu sente isso? Nem tudo tem propósito. Nem tudo tem um significado. Nem tudo eu preciso controlar. Até onde eu sei, tudo é Dele. Fica melhor Ele no controle do que eu, descobri. Mas essa escolha é minha. Essa em especial, é nossa. É tua. Pra mim soam os sons mais pesados e mais fortes, como uma trilha de batalha que instiga meus pulmões e anima meu coração com a certeza de que tudo vai ficar bem. É o imperativo em mim querendo atropelar o amor. Mas cada parte de mim forte, tem fé e sabe perdoar. Uma parte de mim é o amor que Veio de você, a outra é o abismo de onde tento escapar.

Porque, no final, não importa quem me machucou. Não importa quem me feriu. Essas escaras não vão mais importar. Importa quem me levantou, me fez sorrir e enxergou valor. O amor de um desespero como o que tive por ti. Anseio por um amor tão profundo que faria os mares terem inveja. Segue teu coração, mas leva junto tua mente. E isso é tão relativo. Não é?

Josué Campelo | twitter.com/thecampelo [projetorosa.tumblr.com]

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